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Médicos fazem exames desportivos à pressão e a troco de 2,3 euros por consulta

Médicos fazem exames desportivos à pressão e a troco de 2,3 euros por consulta
No desporto federado é obrigatório a realização de um exame médico desportivo e o número de atletas aumenta todos os anos. Em 2017, eram 624 001, segundo os dados do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), quando em 1997 estavam inscritos apenas 271 470. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) não consegue dar resposta aos pedidos de exames e surgiu assim uma oportunidade de negócio: algumas empresas começaram a vender este serviço em pacote (por quantidade de atletas examinados ou juntamente com outros serviços) e a oferecer aos médicos 20 a 30 euros à hora para fazerem essas consultas. Só que não explicam aos clínicos que têm de consultar mais de dez pessoas para ganharem esse valor. Este é um daqueles casos que todos conhecem, mas ninguém atua, denunciam os especialistas em medicina desportiva, salientando que se trata da segurança do praticante.Os exames médico-desportivos são realizados quando um atleta se inscreve como federado e, depois, anualmente, no mês do aniversário. Quase um terço (176 349) pratica futebol e são a maior fonte de rendimento. “O que dá mais dinheiro são as escolinhas”, deixou escapar a responsável de uma empresa que realiza esses exames, para logo emendar: “As escolinhas é que dão mais atletas.”

Os clubes de futebol podem ter equipas a partir dos seis anos e as empresas vendem pacotes de exames. São “clínicas ambulantes”, deslocam-se aos locais. Contactam jovens médicos, num sistema de passa-a-palavra (não divulgam um contacto telefónico e algumas nem um site), pagando-lhes quantias irrisórias.

A Despormed, por exemplo, promete 23 euros à hora aos clínicos (a quantia cai para metade em relação a outros técnicos de saúde, como enfermeiros). Mas esse valor só é pago se o médico examinar, pelo menos, dez atletas. Isso percebeu um médico no dia em que fez os primeiros exames, uma vez que as condições não foram claras no início, como contou ao DN. Se a fasquia dos dez não for alcançada, então a empresa só paga 2,3 euros por exame. Para chegar aos 23 euros/hora, o médico tem em média seis minutos para fazer o exame, quando o tempo para uma consulta de medicina desportiva varia entre 20 e 30 minutos.

Rui Braga, o gestor e proprietário da Despormed, diz que o número de exames realizados depende de cada médico e se está, ou não, acompanhado de outro técnico. “Oferecemos 23 euros à hora mas não exigimos que os médicos vejam 15 ou 20 atletas, isso depende muito da dinâmica do médico e ele é que é o responsável pelo exame. Há quem veja sete ou oito atletas e quem veja 12 ou 13 numa hora. Os nossos médicos seguem os critérios do IPDJ”, argumenta. E critica: “Há clínicas que cobram aos clubes 5 euros por exame e, com esse valor, têm de pagar aos médicos, aos técnicos e ganhar a sua parte. Com isso, estão a destruir completamente a imagem da medicina desportiva.”. A empresa tem sede em Vila Nova de Gaia e a maior parte dos seus clientes estão no Norte.

Alberto Prata, interno de medicina desportiva e médico da seleção nacional de futebol de praia, a atual campeã mundial, explica ao DN os vários passos necessários naquilo que deve consistir uma consulta de medicina desportiva: “O médico deve avaliar as condições físicas do atleta, a sua evolução física, a adequação dos exercícios e da modalidade à idade, se tem, por exemplo, doenças osteoarticulares (articulações). A consulta tem três fases: história clínica, exame físico em que se ausculta, mede a pressão arterial, a frequência cardíaca, etc.; meios complementares de diagnóstico (o médico analisa o eletrocardiograma já feito pelo atleta); e, se indicado, outros exames específicos de acordo com a modalidade praticada, da condição física do atleta e do nível de competitividade, como a realização de uma prova de esforço, análises clínicas, etc.”

 

Dez cêntimos ao quilómetro

A Performed, outra empresa do setor, paga 3,5 euros por exame. A diretora-geral, Rita Alexandre Ribeiro, não fala em valores individuais, apenas refere que pagam as deslocações e as portagens. Quanto ao corpo médico, sublinha que o diretor executivo e o diretor clínico da empresa são médicos e que atestam a qualidade dos exames. Quando estes são realizados fora da área de residência dos técnicos de saúde, pagam dez cêntimos ao quilómetro, muito abaixo dos 36 cêntimos/km estipulados na tabela para o setor público (Decreto-Lei n.º 137/2010 ). Rita Ribeiro revela que a Performed tem 20 mil atletas e prometeu que o diretor executivo iria responder às perguntas do DN, o que não aconteceu até ao fecho desta edição.

Alberto Prata também foi aliciado por essas empresas, mas percebeu que não lhes davam meios para fazer um exame em condições. “Para um médico, 30 euros à hora pode ser bom, mas depois entram miúdos de dois em dois minutos no consultório e quem aceita fazer esse exame não pensa no nível de responsabilidade em que se está a envolver. Se houver um problema de saúde com o atleta, a responsabilidade é do médico. Enquanto não existir um compromisso por parte dos médicos que estão a fazer um ato clínico sem condições, é um problema difícil de resolver, até porque não há controlo”, denuncia. O especialista sublinha que um exame desportivo “é uma consulta médica”. O tempo padrão indicado pelos colégios da especialidade da Ordem dos Médicos para a consulta em medicina desportiva varia entre 20 e 30 minutos (DR, Regulamento n.º 724/2019).

Um dos problemas que arrasta a situação é o facto de os médicos que não concordam com o esquema acabarem por desistir e não apresentarem queixa. O DN contactou as estruturas sindicais e profissionais que dizem não ter denúncias sobre esta matéria.

Fonte: Diário de Notícias

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